A geração que perdeu o direito de esquecer

Eu vivi a transformação digital, assumo essa verdade com o risco de revelar minha idade, passei pela ausência de conexão com o mundo, vivi em um mundo onde as notícias chegavam pelo rádio, tv e para os mais privilegiados elas chegavam por algum jornal logo cedo junto com o pão quente da panificadora. As fofocas, os deslizes dos famosos, tinham um quê de mistério e ficavam restritos à revistas que só as pessoas com maior poder aquisitivo tinham acesso.

A espera para a consulta médica era recheada por essas revistas, acreditem tinha hora para as previsões dos astros nos programas de rádio, as mesmas previsões que podiam ser encontradas para o próximo mês na banca de revistas da cidade no domingo pela manhã. Olhávamos as revistas com fotos de lugares paradisíacos com olhos sonhadores. As boas festas universitárias eram combinadas no calor do momento, vamos ali pegamos alguma bebida – qualquer bebida – uma carne, providenciamos aquele churrasco, bebíamos demais, trocávamos de ficantes demais, falávamos bobagens demais e isso tinha tom de segredo entre os poucos participantes da pequena farra, nada era fotografado, nada era printado, nada era gravado. Fotografias exigiam pose, roupa bonita, maquiagem; gravações só de momentos solenes. Certamente perdemos muito de nossa história por pouco ter registrado, afinal a nossa memória é volátil e o processo de reconstrução do passado é falho e com isso muita coisa que vivemos esvaiu-se como fumaça, mas, ao ver que existe um direito ao esquecimento sendo discutido nos mais altos tribunais e pelas melhores bancas jurídicas do país, eu penso se isso não foi um privilégio viver nessa época.

O acesso ao mundo chegou em nossas vidas através da conexão discada, trocamos a noite pelo dia, porque ficar conectado só era viável na madrugada, mas contávamos os minutos para a meia-noite porque já encantados com o mundo dos sonhos que a rede mundial de computadores trouxe para dentro de nossa casa; o que antes era apenas matéria de revista, agora estava ali ao alcance de nossos dedos.

A passos rápidos chegamos ao smartphone e a todos os milhões de pinduricalhos conectados que hoje carregamos. Ganhamos em conexão, trocamos a expectativa da chegada do jornal pela imediatidade da conexão em tempo real, em tempo total, a troca das horas ao telefone por horas no whatsapp, e antes se a angústia era pela espera da chegada da meia noite para que a conexão com a internet fosse possível, agora a angústia é pela espera do sono que não vem porque não podemos mais desconectar, um minuto perdido é uma oportunidade perdida.

Precisamos estar a disposição de todos: dos pais, dos parceiros, dos filhos, o tempo todo, porque se eu mandar uma mensagem e meu filho não responder imediatamente eu fico preocupada, eu fico desesperada e preciso verificar de algum jeito se ele está bem. Ganhamos em velocidade vivemos novos tempos, felizes tempos em que nos tornamos onipresentes no mundo e o mundo onipresente em nós.

Mas, com isso perdemos o direito de errar, perdemos o direito de experimentar sem medo de estarmos sendo vigiados, perdemos o direito de ter um segredo “sujo”, de ter um segredo, perdemos o direito de esquecer: esquecer aquela discussão em um momento de cabeça quente, porque hoje ela está registrada em nossos apps de trocas de mensagens; o direito de fazer palhaçada, porque ninguém vai empregar o piadista; vivemos na democracia do acesso, mas de contenção de opiniões: tudo que for registrado pode ser usado contra você; perdemos o direito de fingir que determinados relacionamentos nunca existiram:  há 10 anos quando o “rolo” terminava: fotos eram queimadas, drama feito, algumas investigações com os amigos pra saber se fulan@ estava com outr@ e era hora de seguir em frente; agora não, tudo se complicou, você vai deixar de seguir o fulaninho no Facebook e no Instagram e no Snapchat, mas vai ficar semanas bisbilhotando nas redes para ver o que ele está fazendo, vai usar mil modos de fazer isso sem que ele perceba e de quebra vai postar mil indiretas nos stories, via live, na timeline e quando você achar que tudo acabou que já está em outra, vem a maldita rede social – que virou nosso diário – e te mostra que há tanto tempo você e o fulaninho estavam em Fernando de Noronha escorrendo mel para todos os lados.

A hiperconexão tornou a vida mais dramática, levou embora nosso direito de colocar aquelas situações mais incômodas no cantinho mais escuro da memória e além disso furtou-nos a liberdade de fugir: você pode ir para a Austrália, para a Índia, para o Alasca ou ficar 7 anos no Tibet, mais cedo ou mais tarde uma busca no Google te assombrará e você olhará para aquele post eufórico sobre um tema e sentirá um profundo desejo de nunca ter escrito aquilo, você olhará para aquela foto onde comemorava alguma coisa agarrado em uma garrafa de um uísque vagabundo que um dia você bebeu; você re-assistirá o vídeo do rebolado até o chão naquela festa com os seus amigos, que hoje você nem sabe onde estão e sentirá vergonha, apagará essas recordações das suas redes, mas não tem qualquer garantia de que todas essas histórias não serão republicadas por alguém, ou seja, não poderá esquecer, porque está tudo registrado na sua life line (online) em indeléveis registros de alcance mundial fatos que gostaríamos que estivessem restritos à nossa memória totalmente gerenciados pela nossa incrível capacidade de esquecer e não indexados por um algoritmo qualquer ao alcance de quem quiser ver.

Nosso cérebro vem naturalmente equipado com a maravilhosa máquina do esquecimento e nós arrogantes que somos inventamos um jeito de guardar tudo em letras, imagens e sons e desse jeito perdemos o direito de esquecer.

 

Por Angela Rosso

Fonte: https://www.lexmachinae.com/2018/12/20/perdeu-o-direito-de-esquecer/

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