A vez que venderam bitcoin no metrô de São Paulo: o que podemos aprender sobre ganância e a engenharia social

Costumo dizer que o transporte sobre trilhos de São Paulo é o Google das compras: se você não encontrou o que deseja comprar dentro do trem ou do metrô, possivelmente essa coisa não existe (tempos mais tarde aprendi que, seguindo essa lógica, a Supervia no Rio de Janeiro é uma espécie de Deep Web dos ambulantes, e os cariocas nos caminhos de Austin e Belford Roxo possuem muito mais opções de compras do que nós, paulistas. Mas isso é assunto para outro artigo).

Nessa semana, eu estava na Linha 1, que conecta o sul ao norte da capital, quando um vendedor ambulante, passível de também ser um pastor, entrou no carro. Parecia ter  saído dos anos 80.  Ninguém se importou.  Hábitos. O fechamento das portas do trem autorizou o começo da venda de um produto ou para uma pregação. E aí nós fomos surpreendidos, camarada: o homem começou a falar sobre Bitcoin. Sim, essa magia que alucina os dashboards com seus altos e baixos.

Indo de um lado para o outro, com uma empolgação invejável na hora de prometer os resultados – lucros de até dez mil reais mensais, pouco esforço por parte do investidor, taxas baixas de corretagem e aceitabilidade em quase todos os países – fazia com que os passageiros encantados se despissem de seus fones de ouvido – como eu mesma fiz – para ouvir algo mais bonito que a Terra Prometida. Era a profecia da riqueza.

Pega!” ele disse estendendo seu panfleto para um senhor desconfiado “Pode pegar, é só propaganda.”. O senhor agarrou o papel.

Eu não estava tão admirada com a propaganda da corretagem no Metrô: estava bem mais assustada com o alvoroço causado.

A Valorização – A cena insana que vi poderia ser, até poucos anos atrás, uma lenda urbana ou uma fanfic em algum ponto perdido do Reddit. Mas, desde 2012, o Bitcoin vem passando por uma grande valorização, porém restrita aos já entusiastas da criptomoeda.

No último semestre do ano passado, no entanto, manchetes com os teores fulano vendeu tudo e ficou rico investindo em criptomoeda ou casal vive viajando graças ao Bitcoinbombardeavam as timelines diariamente. Pessoas descobriam-se um pouco mais ricas ao resgatarem carteiras esquecidas ao longo do tempo. Quem nunca se interessou por investimentos passou a enxergar-se como um protótipo de Jordan Belfort.

jordan belfort

No início de 2017, o valor da criptomoeda rondava os US$ 1.000.  Em 2010, não passava dos US$ 0,39.  Um dos principais pilares de seu preço é a confiança: quanto mais usuários atestando aquilo como confiável, mais rentável se torna.

Em março foi divulgada a notícia de que o Japão começaria a aceitar a criptomoeda como forma oficial de pagamento em transações realizadas no país[1], inflando o mercado de Bitcoins nipônico e disparando a moeda. No Brasil, a elevação do dólar valorizou ainda mais a moeda virtual, já que o câmbio é primariamente feito entre BTC e a moeda americana.

Atualmente, o Bitcoin atravessa algumas pontuais quedas, já que países se desconfortam com seu uso, tal como a Coreia do Sul que regulou o mercado e as transações, banindo as negociações anônimas[2] (ironicamente, uma das maiores premissas da criptomoeda), ou, eventualmente, presidentes apontam o uso em atividades ilegais, como Trump no Fórum Econômico Mundial em Davos[3]. Entretanto, permanece atraente, e, ao menos à primeira vista, lucrativo.

Ponzi! – A ganância sempre nos levou aos erros mais tolos. Quando desprovidos de racionalidade, ouvimos aquilo que queremos ouvir e tomamos como certo, sem interpretações ou análises. Creso experimentou isso na pele.

Conta a história que este, um rico e poderoso rei da Lídia, consultou o oráculo de Delfos enquanto se preparava para atacar o império persa em 550 a.C. e questionou: “Creso deveria ou não atacar os persas?“.

Os deuses reponderam: “Se Creso empreender a guerra, um grande império será destruído.” A resposta incendiou o rei que, logo em seguida, invadiu a Pérsia e… foi derrotado.  Revoltado, foi tomar satisfação com os profetas, mas logo percebeu que a profecia fora confirmada. Ao invadir a Pérsia, destruiu um grande império: o seu próprio.

Além de aprendermos com Creso que não podemos acreditar em nada milagroso, estar no estado de ânsia é arriscado: qualquer premissa parece favorável a nós. Ganhar é um instinto primal (se ganhássemos de nossas presas, teríamos jantar. Se ganhássemos de nossos concorrentes, teríamos um/a parceiro/a reprodutivo) e esse Calcanhar de Aquiles é maravilhosamente explorado por qualquer fraudador, afinal, o que poderia ser mais atraente do que investir Y e receber esse valor triplicado?

O esquema de pirâmide virou uma febre dentro dos investimentos de Bitcoin. Talvez nem Charles Ponzi, o primeiro grande engenheiro social, conseguiria arquitetar algo parecido atualmente.

O Presidente do Banco Central brasileiro sustenta que o Bitcoin por completo é um esquema de pirâmide. Para Goldfajn, a moeda é  de alto risco investir nesse tipo de ativo sobre o qual o Banco Central não tem controle, afinal “comprar e passar para frente, o que é uma típica bolha ou pirâmide, não é algo que nós reguladores deveríamos incentivar”.

Por óbvio, para os entusiastas da altcoin, o Bitcoin não é o um esquema multinível por si só. Não foi para isto que Satoshi Nakamoto, pseudônimo que assina o paper e a criação da criptomoeda, desenvolveu. Bitcoin não é Telexfree[4]

Nessa linha, a pirâmide surge na promessa rentabilidade enorme em pouco tempo, e também por meio de indicações: Se você indicar um usuário para a plataforma de corretagem, recebe uma comissão. Consequentemente, quando os usuários que você indica fazem outra indicação, isso rende outra pequena comissão para você.  E essa árvore se estende por quantos níveis o esquema for capaz de suportar.

Um pouco de ganância, desconhecimento sobre o funcionamento real da moeda e do trabalho de corretagem jogam investidores para esse turbilhão. Engenheiros sociais sabem disso.

Engenharia Social – De acordo com CERT.br (2012)[5], a engenharia social é uma técnica pela qual um indivíduo persuade o outro a executar determinadas ações. É prática de má-fé, usada por golpistas para tentar explorar a ganância, a vaidade e a boa-fé ou abusar da ingenuidade e da confiança de outras pessoas, a fim de aplicar golpes, ludibriar ou obter informações sigilosas e importantes (e, se você quiser levar isso para um ambiente digital – afinal, a engenharia social auxilia as fraudes digitais, mas não é dependente disso para trazer resultados – como executar códigos maliciosos e acessar páginas falsas, o famoso phishing).

Para o lendário hacker Kevin Mitnick, o fator de segurança mais vulnerável não é o software ou um hardware, e sim o humano. As paixões humanas são frágeis e manipuláveis.

Em um aspecto geral, as boas práticas de segurança são reforçadas como questões puramente tecnológicas. Mesmo para o usuário mais simples, parece sensato que uma aplicação possua senha, por exemplo. E que essa senha não possa ser divulgada para um estranho. Todavia, a educação de segurança falha quando retira-se o fator tecnológico: o usuário não é educado para duvidar de uma ligação no seu telefone na qual o suposto gerente de sua conta bancária pede a senha.

Os ataques parecem muito distante da realidade do usuário, como se a fraude viesse somente pelo computador ou pelo celular. Fora destes ambientes, é como se todas as pessoas fossem justas e honestas. Se alguém me oferece algo vantajoso, é porque quer me ajudar, e eu também quero enriquecer logo! Se o meu gerente pediu a minha senha, é apenas o trabalho dele.

Não pode-se dizer que o corretor do Metrô pretende criar uma pirâmide, é claro. Presunção de inocência ainda rege o direito pátrio e a doçura rousseauniana sobre a bondade é algo que devemos prezar. Talvez o corretor tenha apenas percebido um mercado: enquanto a maioria das corretoras de Bitcoin soam distantes para aquele com conhecimento médio em tecnologia, ele pode ser uma ponte para este público investir.

Mas uma coisa é incontestável: o Bitcoin está alcançando cada vez mais investidores, está cada vez mais acessível e cada vez mais vulnerável. E, na minha mão, Bitcoin é um por R$ 38.000,00 e dois por R$ 75.000,00, só hoje na promoção, chefia.

[1] COLEMAN, Lester. Japan accepts bitcoin as legal payment method. What’s next? CCN. Disponível em: //www.ccn.com/japan-accepts-bitcoin-as-legal-payment-method-whats-next/ – Acesso em 30 de jan. 2018.

[2] TITCOMB, James. Bitcoin drops as South Korea bans anonymous cryptocurrency trading. The Telegraph. Disponível em: //www.telegraph.co.uk/technology/2018/01/23/bitcoin-drops-south-korea-bans-anonymous-crypocurrency-trading/ – Acesso em 30 de jan. 2018.

[3] GRIFFIN, Andrew. Bitcoin latest: Trump Official says cryptocurrency is being used for ‘illicit activities’ and must be regulated. Independent. Disponível em: //www.independent.co.uk/life-style/gadgets-and-tech/news/bitcoin-price-latest-regulation-values-donald-trump-mnuchin-crime-illicit-activities-a8178931.html – Acesso em 30 de jan. 2018.

[4] GAZETA. Justiça condena Telexfree a devolver dinheiro a divulgadores. Gazeta Online. Disponível em: //www.gazetaonline.com.br/noticias/economia/2017/07/justica-condena-telexfree-a-devolver-dinheiro-a-divulgadores-1014074685.html Justiça condena Telexfree a devolver dinheiro a divulgadores

[5] Comitê Gestor da Internet no Brasil. Cartilha de Segurança para a internet. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2012. 142p.

 

 

 

 

Por Sofia Marshallowitz

Fonte: //www.lexmachinae.com/2018/01/30/vez-que-venderam-bitcoin-no-metro-de-sao-paulo-o-que-podemos-aprender-sobre-ganancia-e-engenharia-social/

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