Empresas de tecnologia revitalizam o mercado jurídico

A 14ª edição da Fenalaw, a maior feira jurídica da América Latina, tem se destacado pela divulgação de inúmeros serviços e produtos jurídicos que apostam em tecnologia e inovação para evitar o desperdício de tempo dos advogados, principalmente em rotinas repetitivas. Essas empresas, geralmente startups, são a nova fagulha do mercado jurídico e apontam tendências para a advocacia moderna. Já existe até a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), que reúne várias startups, cujo objetivo é contribuir para o desenvolvimento de um ambiente de tecnologia e inovação na prática jurídica. Não há dúvida de que os escritórios terão de se acostumar a uma nova realidade e vão precisar se adaptar se quiserem permanecer no mercado. Após um passeio pela feira, que está sendo realizada em São Paulo/SP, selecionei algumas dessas empresas, por segmento de atuação, que apresentam novidades e serviços que todo advogado precisa conhecer.

JURIMETRIA

                    Foi-se o tempo em que o Direito era uma ciência bem distante da matemática. Hoje qualquer tomada de decisão assertiva em um escritório depende de uma complexa análise de dados, mas como obter informações estratégicas vindas de processos e até mesmo de tribunais? Deixar um programa de computador fazer esse trabalho pelo advogado é a proposta da Jurimetria, que é a aplicação prática da Estatística, combinada com a Inteligência Artificial (IA), ao Direito.

Intelivix

A startup Intelivix, de Recife/PE, atua para escritórios e departamentos jurídicos que realizam a gestão de um grande volume de processos em advocacia contenciosa. A empresa tem 200 robôs que capturam diariamente a base de processos do Judiciário em todas as instâncias. Com esses dados públicos, consegue fornecer mais de 50 indicadores para os clientes que contratam o serviço disponível em nuvem pelo site da empresa. Sobre as utilidades do sistema de inteligência artificial, o CEO da Intelivix Mauricio de Carvalho esclarece que a ferramenta consegue mapear, por exemplo, em qual Estado ou instância uma empresa ganha ou perde processos, se ela realiza ou não acordos ou, por exemplo, qual o entendimento jurisprudencial dominante nas comarcas. Ter em mãos todas essas informações permite uma atuação processual de maneira estratégica. Os escritórios de advocacia podem utilizar a plataforma como ferramenta de marketing para captar novos clientes, ao apresentar para a empresa que deseja prospectar os principais dados de sua carteira, e também para a manutenção dos atuais com uma gestão eficiente dos processos. Carvalho conta que a startup nasceu dentro de um escritório de advocacia, o Rueda & Rueda, que à época tinha 7 mil processos e em 3 anos saltou para 120 mil. Um desempenho impressionante, quando bem utilizada, é o que promete a ferramenta.

RESOLUÇÃO DE CONFLITOS ONLINE

            Atentas ao cenário de extrema judicialização e de incapacidade do Poder Judiciário em lidar de forma eficiente com mais de 100 milhões de processos em andamento no Brasil, startups como a D’Acordo Mediações, Justto, Sem Processo e Concilie Online têm apresentado soluções tecnológicas para a resolução consensual de conflitos, na qual as partes não precisam recorrer à justiça. Em geral, essas empresas atuam com foco em mediação, conciliação e arbitragem. A maior parte delas utiliza uma plataforma digital on line que conecta as partes e até advogados. Dentre os serviços oferecidos nessa área, destaco duas empresas:

D'Acordo

A D’Acordo Mediações tem atuado basicamente com Direito do Consumidor em casos de massa. O diferencial é que a startup desenvolveu um terminal de autoatendimento que conecta consumidores insatisfeitos e grandes empresas. A tecnologia está disponível nos Juizados Especiais Cíveis e Procons de algumas cidades, como São Paulo e Santos. Ao chegar nesses órgãos, os consumidores são encaminhados para o terminal de autoatendimento para fazer uma negociação com essas empresas. Imediatamente, é feita uma chamada de videoconferência para um conciliador da D’Acordo Mediações treinado para aplicar a política de acordo da empresa reclamada. O problema é resolvido na hora e a minuta de acordo é impressa pela máquina, evitando-se assim o ajuizamento da ação judicial e o protocolo da reclamação administrativa. A startup também disponibiliza o serviço por site e aplicativo para celular por meio de uma plataforma digital que pode ser adaptada ao segmento de atuação do cliente. Segundo a CEO da D’Acordo Mediações Emanuelly Castro, a grande vantagem da empresa foi ter estabelecido parcerias com o poder público, que foi bastante receptivo com a tecnologia criada pela startup.

Sem Processo

A startup Sem Processo desenvolveu uma plataforma digital exclusiva para o advogado que deseja buscar um acordo para o seu cliente em uma demanda judicial já em andamento. Basta acessar o site da empresa e cadastrar a petição inicial no sistema. Com uma base de dados de mais de 800 mil advogados em todo o Brasil, o Sem Processo localiza o advogado da parte contrária e, em 24 horas, encaminha um e-mail convidativo na tentativa de buscar um acordo. Caso haja interesse, a negociação entre as partes pode ser feita por meio de mensagem de texto na própria plataforma digital. O atrativo para os advogados é que o cadastro da petição no site não tem custo algum. O sistema é capaz de oferecer ainda uma minuta padrão de acordo, que pode ser alterada pelos advogados, assinada e homologada digitalmente. O Sem Processo atua basicamente nas áreas de Direito do Consumidor e do Trabalho. Ao citar um exemplo, Fernanda Barone, do Departamento de Marketing, conta que uma marca de vestuário cadastrou 1300 ações trabalhistas no site, sendo que em 30% dos processos já houve acordo.

GESTÃO: ESCRITÓRIOS E DEPARTAMENTOS JURÍDICOS

                       Hoje é consenso que a execução de tarefas repetitivas desperdiça o tempo do advogado, que deve estar focado no desenvolvimento de atividades criativas. Por isso, a tecnologia também promete otimizar o trabalho dos escritórios de advocacia e departamentos jurídicos e comerciais na execução de tarefas que requerem o famoso crtl c + ctrl v. Destaco duas empresas inovadoras:

Tikal Tech

Em um segmento de mercado burocrático, não é exagero afirmar que a Tikal Tech surgiu do sonho de um escritório de advocacia sem papel. Este ano, a empresa inovou ao criar o Eli (Enhanced Legal Intelligence), o primeiro robô assistente capaz de substituir o advogado em tarefas repetitivas, tais como petições de massa e procurações. O Eli é adaptado à necessidade do cliente, que, ao adquirir o software, permite acesso do robô a sua base de dados. Hoje, a maior funcionalidade do Eli é voltada para a elaboração de procurações e petições trabalhistas. A Tikal acumula tradição no mercado jurídico com pesado investimento em tecnologia, tendo desenvolvido produtos como o Legalnote, para gestão interna de processos do escritório; o Diligeiro, para correspondentes jurídicos; e o Seuprocesso, com informações sobre o trâmite de processos voltadas para leigos.

Contraktor

Por enquanto, a Contraktor tem atuado mais para departamentos comerciais e jurídicos de pequenas e médias empresas, promovendo uma integração entre essas áreas. A startup criou a gestão de contratos em nuvem, ou seja, o sistema acompanha desde a elaboração do contrato até o seu vencimento e possível renovação sem a necessidade de instalação de um software. Pela plataforma digital, são possíveis a criação de modelos contratuais com assinatura digital e a emissão de alertas próximo do vencimento. Um dos diretores da Contraktor, Henrique Flores, garante que o software funciona como um cartório digital para transações privadas que consegue reduzir em até 85% o custo operacional dos clientes com a passagem do fluxo físico para o digital. No site da empresa, que fica sediada em Curitiba/PR, é possível uma utilização gratuita da plataforma para teste.

REDES DE PROFISSIONAIS

                 O Brasil é um país com dimensões continentais, o que torna o exercício da advocacia desafiador para escritórios que estão em grandes centros urbanos. Buscar capilaridade de atuação e manter a qualidade dos serviços são metas das maiores bancas de advocacia que inevitavelmente tem de optar pela terceirização dos serviços, principalmente a representação em audiências. Hoje esse serviço de correspondentes jurídicos foi otimizado pela tecnologia. Empresas como Diligeiro e Jurídico Certo facilitam essa contratação, aproximando advogados e bancas de advocacia.

Jurídico Certo

O Jurídico Certo tem sido chamado de “Uber da advocacia” por causa do sistema de contratação e avaliação de advogados semelhante ao da empresa de transporte. O advogado interessado em realizar diligências e se tornar correspondente jurídico se cadastra na plataforma a um valor de R$ 43,90 por mês. Já as empresas e escritórios interessados em contratar esses serviços se cadastram sem custo algum. Surgindo demanda de contratação, o advogado recebe uma notificação por aplicativo de celular para enviar a sua tabela de honorários. Feita a contratação e realizada a diligência, o escritório efetua o pagamento para o Jurídico Certo, que desconta 9% do valor da diligência ao repassar o dinheiro para o advogado. A plataforma ainda tem um ranking dos melhores correspondentes jurídicos, que podem ser avaliados com uma nota de 0 a 5 pelo serviço prestado, o que ajuda a manter a qualidade dos profissionais cadastrados. Segundo o CEO do Jurídico Certo Rafel Heringer, a startup já realizou mais de 500 mil contratações e já repassou mais de 40 milhões de reais aos advogados contratados pelo site. Com os serviços do Jurídico Certo, ele garante que escritórios e empresas têm uma redução de custo de até 30% por diligência.

MARKETING JURÍDICO

                    Em um dos mercados jurídicos mais competitivos do mundo, que atingiu a marca de um 1 milhão de advogados no ano passado, construir uma marca de sucesso e se diferenciar da concorrência torna-se desafiador. Atualmente, exige-se de qualquer advogado que conheça as ferramentas do marketing jurídico, digital e de relacionamento, que podem impulsionar a captação de clientes, sem violar as disposições do Código de Ética da OAB. São requisitos básicos a criação de uma identidade visual e a exposição da marca na internet, nas redes sociais e em site próprio, inclusive adaptado para smartphones. Além disso, a oferta de produtos jurídicos deve garantir uma experiência ao cliente com impacto positivo para garantir a sua fidelização.

In Company

Desde 2005, a In Company oferece diversos serviços de marketing jurídico, digital e de relacionamento. A empresa elabora a identidade visual da marca, diversos tipos de materiais institucionais, sites e ainda realiza toda a gestão de conteúdo digital. Além disso, a In Company também criou vários produtos para melhorar o relacionamento do escritório com o cliente, como o envio de cartas para comemorar uma vitória no processo, por exemplo. Também são aplicadas ferramentas de endomarketing, que garantem a satisfação dos colaboradores do próprio escritório, com avaliação de desempenho e meritocracia. A empresa ainda organiza cursos e workshops para a área jurídica.


Por Mariana Faria

Fonte https://marianafariablog.wordpress.com/2017/10/25/empresas-de-tecnologia-invadem-o-mercado-juridico/

Comentários

Comentários