Inovação em governo: um esporte coletivo

É necessário um time com múltiplas competências, integrado e jogando junto. Então qual seria a escalação ideal?

Faça o teste: escreva a palavra ‘inovação’ na busca de imagens do Google. Provavelmente o que vai aparecer na sua tela é uma profusão de lâmpadas, cérebros e algo que remeta à tecnologia – desde clássicas engrenagens até foguetes decolando. A onipresença da lâmpada mostra a força que tem para o senso comum a narrativa da “ideia” como propulsora da mudança. E ao lado da ideia, vem a narrativa do inovador solitário e genial. É como se a história das inovações fosse assim: estávamos todos diante de um problema – um ‘problemão’ – e em um deserto de criatividade, condenados a repetir a aplicação de velhas soluções, que só funcionam parcialmente, não funcionam ou até pioram o problema. Até que, descida do firmamento ou saída de uma mente genial, chega uma ideia. Antes, havia trevas; veio o inovador e disse “Faça-se a luz!”, e uma lâmpada se acendeu. A ideia e o inovador que a desvelou são dois lados de uma mesma história mal contada. Uma história bem convincente, mas bem pouco provável.

Além do evidente problema com a noção de uma grande ideia que já surge pronta e resolve de uma vez só a situação (alguém já viu isso acontecer?), é problemática também a tendência de atribuir o processo de geração de inovações exclusivamente ao trabalho de um gênio, um inovador ou inovadora. Se na iniciativa privada isso já é raro, no governo é uma miragem. No setor público, ninguém inova sozinho.

De nada adianta ter um grande visionário sentado na repartição, analisando os problemas do país e emitindo ideias de aplicativos para iluminar os povos e resolver a fila do SUS, como de nada adianta ter o Cristiano Ronaldo ou a Marta jogando no Íbis Sport Club – reconhecidamente o pior time do mundo. Inovação em governo é um esporte coletivo, requer um time com múltiplas competências, integrado e jogando junto.

Não por acaso, no relatório “Fostering Innovation in the Public Sector” lançado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2017 um dos quatro eixos de ação para criação de um ambiente que dê suporte à inovação é exatamente “trabalhar juntos”, ou seja, promover estruturas organizacionais e parcerias para melhorar as ferramentas e abordagens disponíveis, dividir riscos e conseguir usar as grandes quantidades de informação e os demais recursos disponíveis.

Então qual seria a escalação ideal de um time inovador no governo?

A primeira tarefa é garantir uma defesa segura e confiante. No gol, indispensável a liderança de uma área jurídica – e de gestão de riscos – que saiba entender e qualificar os riscos da iniciativa. Que transmita confiança para o time e saiba por onde sair jogando sem medo. Goleiro medroso não dá.

Completando a zaga, precisamos de servidores que entendam dos processos e conheçam a legislação no detalhe, conheçam o que já foi feito, quando deu certo, quando deu errado e os porquês. Se por um lado não adianta sair driblando pelo meio dos processos de forma estabanada, ficar na retranca também não é opção. Inovar é tomar riscos, bola pra frente!

No meio campo, precisamos de jogadores versáteis e diversos. Não adianta ter um time com um monte de gente com o mesmo background, a mesma área de formação, pensando todos da mesma forma. Estamos no Brasil, e para fazer política pública e gestão eficientes é preciso ter uma visão representativa dos muitos brasis reais que existem por aí: negros, evangélicos, periféricos, rurais, caatingueiros e litorâneos. Aqui entram também as parcerias com a sociedade civil – Organizações da Sociedade Civil, empresas, sindicatos, academia, etc. E entram também as pessoas de outros órgãos da mesma esfera e de outras esferas federativas. Tem muita coisa boa sendo feita Brasil afora. Não aprender com essas pessoas e experiências é caminho certo para um time sem criatividade nem personalidade. E tem mais: pra compor esse meio campo, não podemos deixar de convocar as redes de inovadores, que congregam gente que está querendo descobrir junto o caminho do gol e pronta para apoiar na hora que a dificuldade aparecer. Pensar junto e criar junto é fundamental.

Para fazer a ligação com o ataque, a palavra é comunicação. É fundamental mobilizar os recursos internos da organização – não só, mas também as assessorias de comunicação – para manter um diálogo sobre a inovação, não apenas explicando mas também sendo capaz de ouvir e mobilizar recursos que surjam do vasto mundo que nosso networking não alcançou (ainda). Fazer a informação chegar nas pessoas – e permitir que ideias transformadoras circulem, entrem em contato com outras e gerem ainda mais transformações – é uma das principais formas de disseminação de inovações. Quem não comunica se trumbica, e não inova.

E é claro que ter um capitão – ou capitã – camisa 10, que lidere o time é fundamental. O papel da liderança na produção e consolidação de inovações no setor público é amplamente reconhecida na literatura da área. O líder dá espaço para o time jogar e criar. Faz a interlocução com a arbitragem, os órgãos de controle e as Consultorias Jurídicas, acha os espaços na defesa e as oportunidades na legislação e, sobretudo, chama para si a responsabilidade quando a situação demandar. É ele quem vai fazer a defesa do projeto, garantir orçamento no órgão, fazer a interlocução com parlamentares e imprensa. Vai dar a cara e colocar seu nome em jogo para fazer o projeto sair. E o time confia nisso.

Apesar dos diferentes papeis, é importante que o time seja afinado e conheça os fundamentos mínimos do esporte – e da prática. Mesmo o goleiro precisa saber passar, chutar – e, em casos extremos, até driblar. Conhecer a lógica subjacente à prática e possuir as habilidades mínimas no trato com a bola permitem o desenvolvimento de uma equipe dinâmica, na qual a ausência de um pode ser substituída pelo avanço ou recuo de outro, cobrindo os espaços do campo de forma harmoniosa e coletiva.

Completando uma equipe campeã, é fundamental também que a equipe jogue de forma coordenada e articulada. Não dá pra ir todo mundo em cima da bola, como no futebol do recreio da escola. A existência de talentos complementares – e de tarefas complementares – precisa ser gerenciada de forma ágil, fazendo com que cada um saiba exatamente o que se espera dele, e que possa contar como apoio dos demais nos momentos de aumento de demanda – e que possa apoiar também de forma estratégica lances mais audaciosos. Um time de inovação entrosado joga sem bola nas costas, orientado para o mesmo objetivo e pelo mesmo ideal, com clareza de propósito e com criatividade para encontrar soluções e armar novas estratégias.

Por fim, sempre é bom lembrar que jogo é jogo, e que treino é treino. Mas o treino – ou seja, o desenvolvimento de capacidades na equipe – é sem dúvida essencial para deixar o time em condições adequadas para dar um show em campo. Investir nos servidores públicos como catalisadores da inovação – seja pelo compartilhamento de conhecimentos, pelo treinamento de habilidades, ou pelo fomento a atitudes – é essencial para fomentar uma cultura de inovação, com incentivos calibrados e práticas que permitam novas e mais dinâmicas formas de trabalho.

E o cidadão? Fica só na torcida? De jeito nenhum. Num time de inovadores, o cidadão é o técnico e o presidente do clube. É o cidadão quem define o esquema tático e escolhe quem joga e quem não joga. Escolhe se quer um time mais ofensivo ou um time mais retranqueiro. Se é pra jogar bonito ou se é só pra fazer o gol. O time de inovadores que se esquece do cidadão pode até ter grandes ideias e conseguir fazê-las passar por toda máquina para virarem uma política ou serviço, mas dificilmente vai conseguir gerar valor público.

Ache seu time

Além de esporte coletivo, a inovação em governo é também um esporte radical. Envolve tomar riscos e disputar o espaço com práticas já enraizadas. E não é sempre que se está cercado de um time completo de inovadores, como aquele que mencionamos há pouco. Aliás, é muito raro que um time completo assim consiga ser formado, considerando a rigidez na alocação e a dificuldade de contratação de pessoal que impera na administração pública. Por isso, é fundamental conseguir formar uma rede de pessoas que estejam conectadas por meio de uma mesma visão de inovação no serviço público, que possa compartilhar experiências, desenvolver conjuntamente capacidades, dividir desafios e produzir juntos. Essa rede pode tomar múltiplas formas: de grupos de bate-papo em aplicativos de mensagem, como Whatsapp ou Telegram, passando por grupos virtuais mais estruturados – com canais de comunicação específicos no Slack ou Rocketchat, ou projetos compartilhados em painéis ágeis de projetos, como o Trello ou o Kanboard -, até comunidades de prática oficialmente instituídas, com encontros regulares e agenda própria. O importante é que os participantes compartilhem uma visão comum de transformação do setor público pela inovação, compartilhem ideias, conhecimentos e referências, e apoiem-se mutuamente na construção e disseminação de soluções.

Há hoje algumas redes e alguns hubs estabelecidos que servem de ponto de encontro e espaço de compartilhamento de experiências e diálogo. No Brasil, a Rede Inovagov se propõe a juntar visões diferentes e complementares para produzir melhores serviços e políticas públicas. Iniciada pelo Ministério do Planejamento, pelo Tribunal de Contas da União e pelo Conselho da Justiça Federal, já conta com participantes do setor público de todos os níveis federativos, além de membros da iniciativa privada, do terceiro setor e da academia. Subgrupos da rede se organizam informalmente para debater e prototipar soluções em temas tão diversos quanto realidade virtual aplicada a políticas públicas, contratação de startups pelo governo e desenvolvimento de materiais e metodologias de design para laboratórios de inovação pública. A adesão é livre e descomplicada (saiba mais). Vale conferir.

Com uma proposta mais informal, o iGovNights faz discussões regulares sobre inovação no setor público usando um velho artifício da colaboração e criação de vínculos: a cerveja. Os encontros para discutir os desafios da inovação trazem desde cases de experiências de sucesso com inteligência artificial em assuntos governamentais até retumbantes fracassos, nas noites de “Contos de Falhas”. A oportunidade de se divertir, aprender e se inspirar ao mesmo tempo é líquida e certa.

Longe de ser uma ‘jabuticaba’, essa onda de inovação pública é global. Iniciativas como o Apolitical (apolitical.co), que tem como apoiadores o Banco Mundial, o World Economic Forum, além de governos, think tanks e veículos de mídia, tem por missão fazer com que o governo sirva cada vez melhor aos cidadãos, ajudando servidores públicos a encontrar soluções inovadoras que já estejam funcionando, conectando ideias, pessoas e parceiros para ajudar a solucionar os desafios mais críticos de nossas sociedades. Numa linha parecida, o Observatório para a Inovação no Setor Público da OCDE vem reunindo relatos de implementação de inovações em governo, enviados por usuários. Em ambos os casos, comunidades virtuais reúnem-se para troca de experiências.

Outras comunidades de prática em temas correlatos à inovação – como gestão do conhecimento, laboratórios de inovação, dados abertos, design em governo, ciência da de dados, governo digital, melhoria em compras públicas, uso de tecnologias inovadoras (blockchain, certificação digital) também existem, com quantidades variadas de participantes e níveis diferentes de maturidade. Fica a dica: vá procurar a sua turma – e inovem juntos!

Por Manuel Ruas Pereira Coelho Bonduki, Guilherme Alberto de Almeida

Fonte: https://www.jota.info/coberturas-especiais/inova-e-acao/inovacao-em-governo-um-esporte-coletivo-28082018

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