Inovésias do mundo real: sonhar é bom, mas viver novas tecnologias é ainda melhor

Cingapura, por exemplo, possui um programa sólido e formal de transformação digital

No último artigo tratei da minha viagem (spoiler alert: viagem imaginária) à Inovésia, o país onde muitas das inovações tecnológicas disponíveis são aplicadas no poder público. Um país onde a entrada é facilitada por um visto eletrônico emitido rapidamente; em que o transporte público utiliza levitação magnética, ônibus conectados a semáforos inteligentes e smart roads que capturam dados e armazenam energia. Não só isso: as licitações são 100% eletrônicas, ágeis e eficientes; os registros públicos são feitos em blockchain; e a saúde pública usa tecnologia para se tornar preventiva e mais barata. Tudo isso me foi apresentado pelo anfitrião Aurelius em um dos sonhos mais fantásticos que já tive.

“Mas Inovésia não existe?” alguns amigos me perguntaram, surpresos e um pouco decepcionados ao terminar a leitura. Bom, o tal ex-território ultramarino britânico não faz parte do nosso mapa-múndi, não. “Mas quais foram suas inspirações, então?”

Felizmente, existem alguns exemplos de países e cidades que estão bastante engajadas em adotar tecnologia para melhora do serviço público e diminuição do seu custo para a população. Recentemente, Paris sediou o GovTech Summit1, evento que reuniu líderes globais para ouvir mais de noventa palestrantes internacionais e debater de que maneira a tecnologia poderia melhorar os serviços públicos como transporte, saúde, segurança, governo digital e engajamento do cidadão. O Summit fez parte da Semana Digital de Paris, foi organizado pela PUBLIC e contou até mesmo com apoio do presidente francês Emmanuel Macron.

O Brasil não tem ficado para trás, ao menos no debate. Recentemente tivemos por aqui o GovTech Brasil 2018, realizado conjuntamente por BrazilLAB, ITS Rio, Fundação Brava e outros parceiros. Foi um sucesso tremendo, como já tratado nesta série de artigos2. O evento colocou em evidência a necessidade de priorizarmos a pauta de inovação no poder público brasileiro, infelizmente conhecido por sua burocracia. Um dos exemplos trazidos naquela ocasião foi o da Estônia3, país famoso por ter saído degradado da ex-União Soviética e que, com a priorização da tecnologia, tornou-se um dos países mais eficientes do mundo em termos de gastos públicos.

Alguns dados que revelam essa realidade na Estônia:

  • carga tributária de apenas 20% (média da OCDE: 35%)
  • 95% de seus prontuários médicos são digitais
  • três horas é o tempo necessário para se abrir uma empresa
  • leva-se três minutos para realizar a declaração de imposto de renda
  • assinaturas digitais geram economia equivalente a 2% do PIB
  • 7% do PIB advém do setor de tecnologia e comunicações
  • por fim, PRIMEIRO DO MUNDO no ranking de competitividade da OCDE

A Estônia é benchmark no mundo ocidental e, felizmente, um exemplo bastante difundido. Ainda bem, há outros. No mundo oriental e, portanto, menos exposto a nós brasileiros, há uma espécie de Inovésia. Um país pequeno, próspero e com grande adoção de tecnologia nos serviços públicos. Mais do que isso, este país possui um programa sólido e formal de transformação digital, chamado Smart Nation. Estou falando de Cingapura.

“Temos como objetivo uma Nação Inteligente, líder econômica, que se impulsione por inovação digital, com um Governo que forneça aos cidadãos as melhores condições possíveis e responda a suas diferentes e mutantes demandas” é como o programa se define4.

Alguns dos mais capacitados integrantes do governo de Cingapura fazem parte dessa iniciativa e seus três pilares são Economia Digital, Governo Digital e Sociedade Digital.

O ambiente de negócios em Cingapura é muito favorável. Pouca burocracia, eficiência nos gastos públicos e talentos humanos lapidados por um sistema educacional excepcional pautaram os avanços nas últimas décadas. Olhando para o futuro, o país sabe que isso não bastará. O novo foco é tecnologia. A Economia Digital, um dos três pilares mencionados, visa desburocratizar e incentivar o empreendedorismo. Exemplos disso incluem um fundo de US$ 160 milhões para fintechs estabelecidas em Cingapura e o prêmio de terceiro lugar mundial no Bloomberg Innovation Index 2018. A Microsoft estima que só a economia digital contribuirá com um aumento de produto interno bruto da ordem de US$ 10 milhões no país até 2021 – relevante se considerado o atual PIB de US$ 320 milhões.

Cingapura é conhecido por ser um dos menores países do mundo em território. Apesar dessa limitação, eles conseguiram alocar uma área, o Distrito Digital de Punggol para receber negócios digitais promissores, em um ambiente com o melhor em tecnologia disponível e integração entre startups. Não por acaso, fica ao lado do Singapore Institute of Technology.

Outro pilar do programa, o Governo Digital foca nos serviços públicos. Seu objetivo é propiciar que sejam “simples de usar”, “ininterruptos”, “seguros e confiáveis”, “relevantes”, “protegidos digitalmente” e “fidedignos digitalmente”. Esses conceitos soam familiar para vocês? Eles obedecem a alguns dos princípios que uma startup (e, em última análise, qualquer empresa) deve observar para se manter viva. Se os seus produtos ou serviços não forem relevantes, simples de usar, confiáveis, etc, a empresa perde clientes e pena para sobreviver. O governo também provê serviços para aqueles que bancam sua existência, os cidadãos – e fazer isso de maneira eficiente é tratar melhor seus patrocinadores.

Em termos mais práticos, existem cinco projetos nacionais estratégicos que, entre 2017 e 2019, estão recebendo importante atenção: (i) identificação nacional digital – em linha do que existe na Estônia; (ii) pagamentos eletrônicos – ganho de agilidade nas transações que impulsionam negócios; (iii) rede/plataforma de sensores sem fio – internet das coisas aplicadas a ativos públicos, como postes de iluminação; (iv) mobilidade urbana inteligente – ônibus conectados, tickets eletrônicos e, finalmente, ônibus autônomos; (v) “momentos da vida” (MOL) – aplicativo para acompanhamento de famílias com filhos pequenos.

Além de tudo isso, o país ainda está adotando princípios da indústria de tecnologia que serão aplicados ao ambiente de negócios como um todo, seja naquilo que toca o setor público ou não. São eles:

  • Open Data – informações coletadas por órgãos públicos podem ser disponibilizadas para criação de soluções para os cidadãos
  • Living Laboratory – investimento em pesquisa e inovação para quebra de paradigmas tecnológicos
  • Industry and Startup Ecosystem – fomento a aceleradoras e ecossistemas de conexão entre startups e empresas maduras
  • Cybersecurity and Data Privacy – não se constrói um país digital sem segurança de informação e privacidade de dados
  • Computational Capabilities and Digital Inclusion – garantir que todos os segmentos da população se beneficiem da Smart Nation
  • Cross Border Collaboration – compartilhamento bi-direcional de novas ideias e melhores práticas

O progresso de alguns desses projetos pode ser acompanhado pela população por meio de seu site oficial. A transparência começa no próprio site da Smart Nation!

Se por um lado Inovésia não existe, já há no mundo fortes candidatos a chegarem naquele nível em um futuro muito próximo. A Lei de Moore está aí para provar que a velocidade da inovação é exponencial! Que sirva de exemplo para outros países, em especial para o Brasil.

 

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Por Thiago Bonini

Fonte: https://www.jota.info/coberturas-especiais/inova-e-acao/inovesias-do-mundo-real-sonhar-e-bom-mas-viver-novas-tecnologias-e-ainda-melhor-15012019

 

 

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