Inteligência artificial: no setor jurídico ainda é futurismo

Inteligência artificial no setor jurídico

inteligência artificial no setor jurídico é sensacional. Os robôs podem aprendem com decisões dos juízes utilizando uma imensa capacidade de processamento de linguagem natural. Robôs podem analisar dados para estimar as chances do ganhar ou perder um processo. Podem recomendar o momento certo de fazer um acordo. Podem até indicar o valor exato que deve ser proposto. Um ganho incrível de eficiência e agilidade.

O único problema é que tudo isso ainda é incipiente. Por enquanto, inteligência artificial para área jurídica é privilégio de grandes empresas que podem arcar com seus custos exorbitantes. Como tudo é baseado em dados e análise estatística, a tecnologia exige muita refinação e muita base de informação. Isso custa caro.

Para nós, brasileiros, há ainda a barreira do idioma. O algoritmo precisa extrair um sentido lógico no que está lendo. Por isso, países de língua inglesa tendem a evoluir mais rápido. Há mais dados em inglês do que em português, ainda que as primeiras grandes bases de dados mesmo em língua inglesa estejam surgindo só agora. Dependemos de os tribunais terem a boa vontade de fornecer informações. Vai acontecer porque também é interesse deles que essa revolução ocorra. Mas ainda vai levar um tempo.

Alternativas à inteligência artificial no setor jurídico

Isso não significa que a transformação digital não esteja transformando a vida dos advogados. Se a inteligência artificial é muito cara, substituímos modelos estatísticos por árvores de decisão, por exemplo, que têm eficiência similar. Elas não têm machine learning, dependem da interação humana para ensinar o caminho, mas já são viáveis em termos operacionais e financeiros.

Tecnologias ainda mais primitivas também estão fazendo uma grande revolução da base dos serviços jurídicos. Muitas tarefas repetitivas foram automatizadas. Advogados que ficavam na base da pirâmide, normalmente em início de carreira, foram substituídos pela tecnologia nos grandes escritórios e nas grandes empresas. Escritórios que tinham dez advogados, hoje precisam de apenas um ou dois e uma máquina de automatizar petição.  É um movimento sem volta. Esses empregos nunca mais serão recuperados.

Por outro lado, as novas tecnologias permitem que advogados recém-formados trabalhem remotamente. Quando eu comecei, há 31 anos, para trabalhar era preciso abrir um escritório, pagar aluguel e todos os outros custos, organizar livros, montar a mesa e esperar o cliente aparecer. Hoje, é possível trabalhar de qualquer lugar, fazendo reunião com cliente pelo Skype ou Whatsapp. O cliente nem quer mais ir ao escritório. E há plataformas de trocas de serviço, em que profissionais especializados escrevem determinadas petições para outros e eles dividem os honorários. Um advogado de São Paulo pode pegar um serviço em Manaus e executar em Ubatuba, durante uma viagem. Se eu me formasse hoje, trabalharia da casa dos meus pais. Ajudaria a pagar as contas, é claro. Não fujo das responsabilidades.

Vida longa aos advogados

O que quero dizer, afinal, é que a transformação no setor jurídico está em curso em ritmo acelerado, independentemente da inteligência artificial. A forma de trabalho está mudando e vai mudar muito mais. Serviços braçais cada vez mais serão executados por máquinas, mas isso não significa que os advogados desparecerão ou se tornarão profissionais decorativos. Não mesmo.

Advogados cada vez mais poderão se focar em analisar e interpretar dados, discutir questões com mais profundidade, oferecer opiniões mais qualificadas e realizar funções em que eles realmente sejam insubstituíveis. Audiências, por exemplo, e muitas mais. Advogados são estruturais na sociedade, não são resultado da civilização. Aliás, a civilização existe porque consegue minimizar e solucionar os conflitos. E empatia e confiança ainda dependem de relações humanas. Nenhum robô substitui isso. Não vamos desaparecer. E nem venham cantar vitória em cima de nós.

Publicado em: 28.02.2019

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