A internet e seus cachorros

Em 05 de julho de 1993, a revista The New Yorker publicou um cartoon de Pete Steiner. O desenho mostrava dois cachorros, um deles sentado à frente de um computador, falando para o outro: “Na internet ninguém sabe que você é um cachorro”.

cachorros

A metáfora, na época, provavelmente se referia à possibilidade de criação de uma identidade a ser utilizada nos antigos canais de conversa, locais em que o usuário, ao menos em tese, possuía praticamente integral controle acerca do quanto revelava para aqueles com quem interagia.

Quando o quadrinho foi publicado, a internet engatinhava e estava longe de se tornar ferramenta onipresente em nossas vidas e, muito mais que um par de cachorros se respaldando em um suposto anonimato, hoje temos uma matilha universal jamais silenciada.

Passados mais de 20 anos da primeira publicação do quadrinho de Pete Steiner, despejamos online gratuitamente valiosas informações sobre nós – nome, idade, gênero, preferências, fotografias, contatos, gostos, opiniões, localização, tempo em sites e aplicativos, reações a notícias de feed de redes sociais, assuntos pesquisados, gravação de voz, deslocamento, informações de saúde, registro de impressão digital etc., e estamos aparentemente muito pouco preocupados com o que pode ser feito com tais dados e, mais, quais informações estão sendo coletadas a cada clique de mouse.

Permitindo-me um pouco de divagação: você fornece essas informações para estranhos na rua?

Fato é que, a partir do cruzamento de tais dados, é possível traçar um perfil bastante acurado do usuário por trás da tela do computador. Exatamente por isso, informação passou a ter valor, caracterizando-se como verdadeiro ativo fartamente utilizado pelas empresas não só para direcionamento de publicidade e “melhor experiência de usuário”, mas – por que não? – de criação de um universo hábil a interferir efetivamente em nossas escolhas.

Hoje em dia, se você está na internet, todo mundo sabe que você é um cachorro.

 

 

Por Renata Baião

Fonte: http://www.lexmachinae.com/2018/02/16/internet-e-seus-cachorros/

 

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