Lawtech de Curitiba arrecada valor recorde em plataforma de equity crowdfunding e planeja fazer ICO

Contraktor oferece sistema de gestão de contratos em nuvem com agilidade e menor custo para clientes

 

Descontentes com o modelo tradicional de consultoria jurídica com a qual trabalhavam, os advogados Bruno Doneda e Henrique Flôres decidiram fundar em junho de 2016 a lawtech Contraktor para oferecer um sistema de gestão de contratos jurídicos em nuvem. Hoje, a startup curitibana gerencia R$ 100 milhões em contratos e quer chegar a R$ 1 bilhão.

A Contraktor ocupa a 44ª posição no ranking do movimento “100 Open Startups”, que lista as 100 startups brasileiras mais atraentes e prontas para receber investimentos. Com nove funcionários e planos para chegar a 12, a lawtech já levantou mais de R$ 570 mil em duas rodadas de investimentos e pretende fazer uma Oferta Inicial de Moedas (ICO, na sigla em inglês), novo modelo de captação de recursos utilizado por empresas digitais.

Nesta entrevista, Henrique Flôres explica como a startup arrecadou valores consideráveis de dois investidores-anjo, um fundo de investimento e uma plataforma de equity crowdfunding. Conta também, como a Contraktor facilita o fechamento de negócios dos clientes, quais são os próximos passos da empresa, entre outros temas.

Primeiro, vocês abriram uma consultoria jurídica voltada para startups e depois a Contraktor. Como ocorreu essa migração?

Henrique Flôres – A gente percebeu que precisava de uma ferramenta tecnológica para poder entregar os contratos para os clientes com menor prazo e custo. Entramos no programa do Founder Institute, do Vale do Silício, ficamos por três meses e constituímos o modelo de negócio para levar para o mercado. Então, começamos a trabalhar em cima do projeto com a cara que ele está hoje, que é uma empresa para ir para mercado e não um projeto-piloto dentro da consultoria.

A primeira captação foi realizada com dois investidores-anjo e um fundo de investimento, ambos de Curitiba. O valor total dessa participação foi de R$ 122,5 mil. Como se deu a aproximação da Contraktor com esses primeiros investidores?

Henrique Flôres – A gente conhecia esses investidores do período em que a gente trabalhava com as startups na consultoria. Um dos investidores foi nosso cliente no processo de investimento. O outro foi nosso cliente para alguns serviços de consultoria para a fintech dele. E o outro, a gente conhecia do mercado e do Founder Institute. Eles eram sócios desses fundos pré-seed e, a gente se relacionava com eles há algum tempo. Eles já conheciam nosso trabalho e entenderam por bem não só acreditar no projeto, mas em nós como sócios para desenvolver projetos.

Na segunda rodada de investimentos, vocês foram intermediados pela plataforma EqSeed e arrecadaram R$ 450 mil em 56 dias, com o maior ticket-médio já registrado pela plataforma, de R$ 15 mil por investidor. A que se deve esse interesse dos investidores? 

Henrique Flôres – A nossa premissa é realmente facilitar o fechamento de negócios das empresas. A plataforma acaba ultrapassando e muito essa ideia tradicional da gestão de contratos. Passar o fluxo do físico para o digital e transacionar nesse ambiente digital, dá ganho de tempo e de recurso, e você vende muito mais. Estamos bem posicionados como uma plataforma de negócios e facilitamos essas transações para os usuários. Isso vai ficar muito mais claro na versão 4 do sistema, que vai sair neste ano.

Como tem sido o retorno dos clientes?

Henrique Flôres – Temos o seguinte feedback dos clientes: 60% a menos no tempo de transação, 5 vezes a mais de negócios fechados no mês e 15% a menos de perdas de prazos, que costumavam ocorrer. Colhemos esses feedbacks dos clientes e acompanhamos esses indicadores para demonstrar que, com o nosso sistema, estamos facilitando a vida dos usuários e do ambiente empresarial. Cuidamos das relações jurídicas que são entabuladas e firmadas pelos usuários. Estamos trazendo a blockchain para a próxima versão e tudo vai ser registrado na rede de criptomoeda. Com isso, a gente ganha também confiança, segurança desses registros e pode fazer um trabalho como o de um cartório, só que estamos focando em contratos. Estamos registrando esses documentos dentro da nossa plataforma em uma rede segura e confiável, que não vai ter possibilidade de alterações de contratos.

Se vocês tivessem fundado hoje a Contraktor, acreditam que o processo de captação na primeira rodada teria sido mais fácil ou não através da instrução normativa 588 da CVM que regula o equity crowdfunding? Por quê?

Henrique Flôres – Temos muitas lacunas em relação às etapas de captação. Como somos da região sul, nossa rede de contatos já estava esgotada, e a gente precisava de uma rede maior em São Paulo e Rio de Janeiro. A gente tinha uma dificuldade muito grande também em relação ao preconceito às plataformas de equity crowdfunding, porque retira um pouco do poder que os sindicatos de anjo e os grupos de investidores têm. Batemos o recorde de captação em 56 dias e foi o recorde da plataforma.

Qual é o público-alvo da Contraktor? Ela é procurada por advogados e escritórios?

Henrique Flôres – Ela não é procurada por escritórios. Nós trabalhamos com cerca de 30 escritórios, inclusive para agregar o serviço do advogado, e ele conseguir vender esse serviço para as empresas. Elas estavam carentes de gestão, perdiam contratos e prazos. Era uma oportunidade para os advogados começarem a cuidar não só da parte de elaboração desses contratos, mas avisar o cliente de que o contrato estava vencendo. O advogado não entendeu isso. A maioria dos escritórios, que a gente visitou e passou usuário e senha, sequer acessava a nossa plataforma para poder continuar conduzindo um trabalho de cocriação. Ficamos uns dois meses e meio nesse circuito. Hoje, a gente só trabalha com empresas, principalmente com os setores de compra e comercial, com interface com alguns departamentos jurídicos. Temos um cenário de dificuldade do advogado, em que ele tem um certo bloqueio com a tecnologia. Estamos atuando no mercado B2B, bem voltado para as empresas.

Como vocês fidelizam os clientes?

Henrique Flôres – Não tem custo de implementação e funciona como se fosse uma locação mensal. Você paga e utiliza. Nesse formato, a gente tem um conflito com a cultura brasileira que está acostumada com aquela empresa grande, que chega com um software e cobra um custo altíssimo de implementação que vai durar seis meses ou um ano para fazer o sistema rodar porque tem muita customização. Não trabalhamos com licenças. O cliente já entra direto na nossa plataforma, vai usando e pagando mensalmente.

Vocês pretendem multiplicar por dez o faturamento da empresa até dezembro deste ano e atingir 1.500 usuários ativos na plataforma em 2018. Já cogitaram, por acaso, fazer um IPO em alguma bolsa estrangeira ou um ICO? 

Henrique Flôres – Pretendemos fazer um ICO. A gente precisa de criptomoeda para entregar por um certo período de tempo a nossa solução de blockchain, de registro na nuvem, gratuitamente. Não temos nada planejado quando vai acontecer nem qual vai ser o valor dessa captação. A ideia é ter uma moeda específica da Contraktor para que a gente possa utilizá-la para o público assinar digitalmente dentro da nossa plataforma e, quem sabe na sequência, utilizar a plataforma para 2018 como smart contract, os contratos autoexecutáveis. Essa criação de contratos pode estar atrelada a essa rodada de ICO. Fazendo um ICO, podemos receber investimentos de qualquer parte do globo para possibilitar a nova rodada de captação no próximo ano.

Quais são os próximos passos da Contraktor?

Henrique Flôres – Estamos refazendo a jornada do cliente, que é o onboarding, para ficar muito mais fácil para o usuário interagir com a plataforma. Já tivemos no ano passado a experiência de fazer alguns protótipos de inteligência artificial, mas o que realmente o mercado está nos pedindo é que comecemos a trabalhar o quanto antes com blockchain dentro de uma interface simples para que qualquer tipo de empresário, seja ele pequeno, médio ou grande, possa utilizar a ferramenta sem maiores problemas. Estamos investindo muito em usabilidade agora e blockchain.

Qual tipo de plataforma jurídica ainda não foi desenvolvida e poderia ajudar tanto os advogados quanto os escritórios?

Henrique Flôres – As ferramentas já estão aí. Senti dificuldades de colocar o advogado para usar uma ferramenta tecnológica. O Insper e a FGV do Rio de Janeiro estão trabalhando para ensinar os advogados sobre direito e empreendedorismo, direito das startups, etc. Se o advogado se inserir neste contexto para entender o que é uma startup, talvez compreenda que hoje ele é obrigado a usar tecnologia. Plataformas de mediação e arbitragem ajudam também a desafogar o Judiciário. Já tem umas três ou quatro no mercado que estão trabalhando muito bem.

 

Por Paula Dume

Fonte: https://www.lexisnexis.com.br/lexis360/noticias/119/lawtech-de-curitiba-arrecada-valor-recorde-em-plat/

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