O movimento de transformação no Direito: preparando você e sua organização para os novos tempos

O mundo está mudando rapidamente e ninguém sabe para onde caminhamos. Otimistas se apegam à teoria da abundância ou da evolução da consciência humana para afirmar que tudo irá melhorar e que, num futuro próximo, trabalharemos por propósito, não teremos chefes ou apenas por prazer. Pessimistas dizem que as mudanças em curso serão catastróficas, e que não existirá nem planeta, quiçá empregos.

Como não dá para ficar parado, muitas organizações começam a se preparar, e a preparar seus líderes, para a realidade exponencial, pois as mudanças em curso exigem um novo olhar sobre as coisas – em todos os sentidos.

O grande desafio das organizações tradicionais hoje é operar como as startups, definidas como ‘instituições humanas projetadas para criar produtos e serviços sob condição de extrema incerteza”[1]. As pequenas startups ou gigantes como Apple, Amazon, Facebook, Microsoft e Uber, por exemplo, são orientadas pela inovação e buscam isso diariamente. Bom, já sabemos, é preciso ter uma cultura organizacional orientada para inovação, sem a qual a transformação não acontecerá (como disse Joi Ito, diretor do MIT Media Lab, “a cultura come a estratégia no café da manhã”).

Embora as inovações tecnológicas estejam no centro da economia digital, a chave para a mudança são as pessoas, pois são elas que fazem a diferença. Por exemplo, o que fazer com a grande quantidade de dados gerados? Dados, por só, não produzem insights valiosos; para que se consiga extrair algo, é preciso que as pessoas os analisem e os interpretem, para que possam tomar boas decisões. Sem o ser humano, isso não é possível.

E aqui chamo a atenção para a figura do líder. O líder tem o papel de compreender que a dinâmica do mercado está mudando e isso é só um começo. E mais, ainda que num mundo já dominado por algoritmos e inteligência artificial, muita mudança ainda está por vir. Crias ambientes propícios à inovação, ter um propósito inspirador, trabalhar novas competências e metodologias de projetos, ampliar conhecimentos e focos de atuação, empoderar o time, dar autonomia, reconhecer o trabalho das pessoas e formar novos líderes.

Para compreender isso, a organização precisa investir tempo e dinheiro na formação educacional do seu time, pois entender as novas tecnologias e as novas dinâmicas do trabalho tornou-se essencial. Peter H. Diamandis, no prefácio do livro Organizações Exponenciais, diz:

“(…) Parabéns pelas vitórias que levaram você até este ponto de sua carreira, mas gostaria de dizer que essas habilidades já estão desatualizadas. (…) No mundo corporativo de hoje, existe uma nova estirpe de organismo institucional – a Organização Exponencial – solta na Terra, e se você não compreendê-la, não estiver preparado para ela e, em última análise, não se tornar uma delas, você sofrerá uma ruptura.”[2].

Trazendo isso para a realidade dos departamentos jurídicos e escritórios, as mudanças são tímidas e lentas. Os profissionais do direito, no geral, possuem muita dificuldade em inovar, principalmente os mais bem-sucedidos. E por que os profissionais do direito têm essa dificuldade? Bom, após conversar com centenas de profissionais, vou enumerar os principais problemas: o primeiro aspecto tem a ver com a alta confiança que possuem no serviço que realizam, de forma que pensam que não precisam mudar. O segundo está relacionado com o desconhecimento: (i) pensar na inovação de forma muito restrita e ligada apenas à inovação disruptiva, (ii) falta de formação (ou formação focada exclusivamente para aprimoramento técnico (direito material)), e (iii) falta de conhecimento das aplicabilidades das metodologias de gestão e novas tecnologias. O terceiro passa também pelo desconhecimento, mas em relação ao custo monetário da mudança (que geralmente é menos custoso do que pensam).

Porém, a nova realidade, que coloca em risco negócios e carreiras, começa a mudar. Neste momento, existe interesse crescente pelas metodologias de gestão mais criativas e empoderadoras (design thinking, legal design e métodos ágeis, por exemplo) e pelas novas tecnologias jurídicas, chamadas legaltechs ou lawtechs[3]. Também é possível verificar um investimento maior em sistemas de melhor qualidade e mais seguros.

Dois exemplos emblemáticos de organizações jurídicas que estão tentando inovar na gestão são os da empresa ThyssenKrupp Elevadores e do escritório Antunes Mascarenhas, que acabaram de passar por um processo de construção de um plano de inovação, utilizando, para isso, metodologias modernas e ferramentas de design. São dois cases para se acompanhar de perto.

Outro exemplo foi a operadora de plano de saúde Amil, que contratou uma plataforma de análise de dados e uma consultoria especializada em interpretá-los para elaboração de um laudo a fim de levar ao STJ informações sobre a quantidade de processos existentes em relação a um determinado tema (processos existentes atualmente e projeção nos próximos anos (análise preditiva))[4]. A intenção é fazer com que o órgão aceite o caso como recurso repetitivo. Se isso acontecer, ganham a empresa (previsibilidade e segurança jurídica em relação ao tema) e o Judiciário, que não terá que julgar centenas de milhares de casos iguais. Essa é uma tendência forte para os próximos anos.

Existem outros inúmeros casos de contratação de lawtechs pelos departamentos jurídicos e escritórios, mas sinto que falta ainda um plano consistente de mudança, bem como investimentos maiores em produtos e serviços que possam suportar a transição para o digital. Será impossível alcançar níveis avançados de prestação de serviços sem esse investimento. Quem não fizer isso, vai ficar para trás.

Enfim, o momento de mudanças exponenciais altera toda a dinâmica da vida e do trabalho, trazendo para esta realidade, obviamente, as organizações e os profissionais do direito. A preparação para a realidade exponencial começa pelo estabelecimento de uma cultura orientada para a inovação, sendo que cabem aos líderes criar e sustentar essa cultura, eliminando a barreiras existentes.

A caminhada para o sucesso exige um plano e uma execução primorosa deste plano: 1) faça um diagnóstico do grau de maturidade digital; 2) estabeleça estratégia e metas claras para os próximos dois anos (priorize aquelas que trarão maior valor); 3) estabeleça projetos-piloto (um alerta, muitas organizações estão pulando as duas primeiras etapas); 4) torne-se uma organização data-driven (orientada por dados); e 5) transforme-se em uma organização digital (uma jornada longa, mas essencial para sobrevivência). Lembre-se de envolver todo o time em todas as fases e de treiná-los com cursos de ponta. Importantíssimo, nada acontecerá se a cultura permanecer top-down, sem diversidade e sem multidisciplinaridade. Mãos a obra; não há tempo a perder.

[1] Trecho extraído do livro “Startup Enxuta – Como Os Empreendedores Atuais Utilizam a Inovação’, de Eric Ries.

[2] Trecho extraído de Organizações Exponenciais, de .Malone, Michael S. / Ismail,Salim / Geest,Yuri Van.

[3] Esse movimento de compreender e aplicar as novas tecnologias foi e vem sendo impulsionado em grande parte pela AB2L (Associação Brasileira das Lawtechs e Legaltechs), que, em agosto de 2018, contabiliza mais de cem novas tecnologias para fornecer serviços jurídicos do mais variados. A AB2L é presidida por Bruno Feigelson. Para fins de registro histórico, no que diz respeito à aplicação das Legaltechs, mudança de cultura e preparação para os novos tempos, cito aqui os cases da Localiza Hertz (departamento jurídico) e do Tozzini Freire (escritório), que foram essenciais na propagação do uso das novas tecnologias, bem como o primeiro curso Ciência de Dados aplicado ao Direito, criado por Alexandre Zavaglia Coelho. Do meu encontro com o Bruno e Alexandre surgiu a ideia de criação da Future Law, escola que prepara os profissionais para a realidade exponencial, do movimento Futuristas e, também, da Legal Design Solutions, que aplica esses conhecimentos nas organizações.

[4] Projeto liderado pelo diretor jurídico Eduardo Gil e com consultoria técnica e metodológica de Alexandre Zavaglia Coelho.

 

Por Christiano Xavier

Fonte: https://www.thomsonreuters.com.br/pt/juridico/blog/o-movimento-de-transformacao-no-direito.html

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