SCI-FI e sociedade: como as civilizações nascem (e morrem)

Pensando na pauta desta terceira edição, entre um açaí e outro, fiz uma constatação óbvia: tenho que deixar de lado o meu vício em obras nipônicas. Doeu. Provavelmente, não vou aguentar por muito tempo. Mas é para o melhor. Também pensei, devido ao momento, em focar no tema da política. Não deu outra, as obras escolhidas foram: Red Dead Redemption, por causa do recente lançamento; e a Trilogia dos Mortos, de George Romero, passando também por outras obras sobre zumbis (que nunca saem de moda). Essa escolha também permitiu o uso do trocadilho que dá nome a esta publicação.

O recém falecido diretor George A. Romero (1940-2017) é o criador do sub gênero de cinema zumbi. Apesar de não ter, nem de longe, inventado a ideia de seres que voltam do mundo dos mortos, ele é o responsável pelo arquétipo de morto-vivo que temos em mente. Em sua Trilogia dos Mortos[1], ele recheou os zumbis de alegorias e metáforas, com o objetivo de alertar a sociedade para temas críticos. Praticamente todas as obras que vieram depois de 1968, ano do primeiro longa, bebem das “regras” criadas pelo diretor americano. The Walking Dead talvez seja o melhor exemplo. A obra simplesmente não existiria se não fosse por Romero. O foco da estória não são os mortos-vivos, mas a loucura que tomaria conta dos humanos em um cenário apocalíptico. No entanto, vale dizer que a série de TV baseada nos quadrinhos não passa de uma novela mexicana com zumbis. E eu não me desculpo por falar isso.

A outra obra que será discutida é Red Dead Redemption, de 2010, bem como sua recente continuação. Esse game western é a segunda produção mais lucrativa de toda a história da indústria do entretenimento (que inclui filmes, games, livros, etc.). Lucrando quase U$$ 1 bilhão nas primeiras semanas e com as vendas ainda a todo vapor — perdão pelo trocadilho com locomotivas —, RDR 2 perde apenas para GTA 5, que é da mesma produtora. Ambientado no velho-oeste norte-americano, o game critica severamente as bases e fundações da América. O racismo com mexicanos e indígenas e, principalmente, a corrupção presente nas instituições americanas fazem refletir se valeu mesmo a pena ter levado a Lei ao Oeste.

Trilogia dos Mortos (1968, 1978 e 1984) e The Walking Dead (2003-atualmente)

Os mortos-vivos estão presentes em praticamente todas as culturas. Por exemplo, na mitologia nórdica, o Draugr é um corpo reanimado de um viking, que serviria de guardião dos tesouros que eram enterrados junto do guerreiro. Na China antiga, os caixões eram selados com correntes e os defuntos tinham suas bocas estufadas. Se assim não fosse, o corpo se levantaria e sairia a devorar a todos que encontrasse pela frente.

Por sua vez, os filmes de zumbi sempre refletiram o que estava acontecendo na esfera política e social. Os primeiros filmes, no início do século XX, foram baseados na cultura haitiana. Nesse país, diz-se que é possível transformar alguém em seu escravo através de vodu. Transformar alguém em “zumbi”, no Haiti, é até mesmo contra a lei[2]. Destarte, nos filmes antigos, de antes da década de 1960, os zumbis eram fruto de magia negra e eram nada mais do que “escravos assassinos que vão matar a mulher branca indefesa[3].

Romero, portanto, não criou os zumbis, mas os elevou ao status de monstros clássicos do cinema, ao lado do Drácula e do monstro de Frankenstein. Ao dirigir o seu primeiro longa, Night of the Living Dead (1968), ele embutiu nos zumbis metáforas e alegorias, usando-os como instrumentos de reflexão e crítica social. Na época, a alegoria foi a paranoia da guerra fria[4]. Será que foram os soviéticos que transformaram o meu vizinho em um monstro? No seu segundo filme do gênero, Dawn of the Dead (1978), a crítica dirigiu-se ao consumismo exacerbado, com os protagonistas trancafiados dentro de um shopping em meio ao apocalipse. Todos os zumbis se dirigem ao shopping center porque isso é o que sobrou na memória deles. É tragicômico vê-los perambulando pelas lojas e caindo por cima dos produtos. O filme tem uma refilmagem de 2004, que foca mais em ação e não tem a profundidade do original. Já em Day of the Dead (1984), com a tentativa, por parte dos militares, de “domesticação” de mortos-vivos, que acabam por mostrar resquícios de humanidade que não são vistos por alguns personagens, o diretor lançou luz sobre a exploração dos mais fracos e sobre o militarismo. Esses três longas são as obras primas de Romero e compõem a Trilogia dos Mortos. O diretor voltaria a fazer vários outros filmes do gênero, mas sempre com qualidade inferior à trilogia original. Por causa de seu legado, “chamar George Romero de Pai dos zumbis é justo, mas insuficiente. Ele também precisa ser lembrado por sua habilidade em te fazer refletir além do que você na tela em primeira instância[5].

Seguindo os passos de Romero, The Walking Dead também certamente não é uma obra sobre zumbis. É uma obra com zumbis. Nela, um dos temas tratados é o que significa ser humano. Biologicamente, os zumbis apresentam todas as características inerentes ao ser vivo. O que, então, nos diferencia deles? Propósitos. Toda ação humana é direcionada a melhorar sua situação atual, e isso vai muito além de comer e beber[6]. Além disso, como o leitor bem sabe  Aristóteles dizia que o homem é um animal político (zoon politikon). Nossa capacidade de raciocinar e nos comunicar pela fala nos diferencia dos demais animais. Na trama, as diferenças entre humanos e mortos vivos vão se estreitando. Alguns personagens sucumbem e perdem a razão de viver e o cenário apocalíptico cria até um grupo de humanos canibais. O grupo de protagonistas passa apenas a sobreviver naquele mundo, dia após dia, o que leva o personagem principal a dizer: “os mortos que caminham somos nós”.

Porém, o tema mais interessante em The Walking Dead com certeza é o da política. A dialética ditadura vs. democracia permeia toda a estória. O protagonista Rick sempre transita entre um sorridente pai de família, que cultiva plantas em seu quintal, e um ditador sanguinário. O personagem recebeu muita inspiração do ditador romano Cincinato, um simples fazendeiro que, em razão de uma invasão, foi eleito ditador pelo Senado (Sim, era possível). Ao derrotar os invasores, renunciou ao cargo e voltou a ser fazendeiro. Anos depois, a situação repetiu-se[7].

O surgimento dos grupos de sobreviventes também chama a atenção. A opressão que os Salvadores impõem sobre grupos mais fracos, cobrando tributos, remete a origem do Estado. Segundo o sociólogo Franz Oppenheimer, existem duas maneiras em que o homem pode auferir seu sustento: pelo seu próprio trabalho ou se aproveitando do trabalho dos outros. E a gênese do Estado aconteceu justamente quando pastores ricos escravizaram pastores pobres. A base econômica do Estado, assim como a dos Salvadores, é a exploração do trabalho humano[8].

Red Dead Redemption 1 e 2 (2010, 2018)

A civilização valeu a pena? Red Dead Redemption nos faz questionar isso. Assim como GTA, Red Dead é uma sátira da América. Ambientados no velho-oeste, RDR e RDR2 retratam a chegada das instituições americanas, tais como a polícia, que impõem a Lei e a “ordem”. Mas essas instituições seriam muito piores do que a anarquia que reinava.

Na estória do primeiro jogo, John Marston, um ex-membro de gangue, é chantageado pelo FBI para caçar seu antigos companheiros. Se ele matar todos, alcançará “redenção”, podendo viver uma vida normal com sua família. Tudo isso apenas para ser traído e morto pelo governo no final. Na continuação, que na verdade é uma prequela, se passando pouco mais de uma década antes do primeiro game, encarnamos Arthur Morgan, um membro da gangue de John Marston. Aqui vemos que os criminosos na verdade não são tão ruins e os reais bandidos são os agentes do governo. Não é tudo tão preto no branco como achávamos.

Red Dead Redemption é de um gênero chamado pós ou anti oeste, uma versão distorcida do western romantizado que assistimos em canais de filme. Aqui, os criminosos, que deveriam ser os bandidos, são os heróis; e os agentes da lei, que deveriam ser os mocinhos, são os vilões. E são estes últimos que sobrevivem e nos governam até hoje.

Como o Terry Anderson e Peter Hill contam em The not so Wild, Wild-West, o velho-oeste ia muito bem antes de o governo chegar. As próprias pessoas criavam instituições e resolviam suas disputas. Tudo foi pro brejo — mais um trocadilho —  quando o Estado chegou. O morticínio de indígenas só ocorreu por meio do governo; o povoamento era feito de maneira muito mais eficaz quando era livre do que quando foi planejado de maneira central[9]. E o velho-oeste também nem era um lugar perigoso. O índice de homicídios das piores cidades eram menores do que os do Brasil de hoje[10]. Qualquer pessoa em sã consciência preferiria morar no faroeste do que na Chicago[11] ou na Portland[12] de hoje…

 

[1] Getro, “GEORGE ROMERO E A TRILOGIA DOS MORTOS”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=0FEEv0gt8Ug>

[2] Laryssa Borges, “Na polêmica do vodu, lei haitiana proibiria criação de “zumbis”. Terra, 21/01/2011. Disponível em:https://www.terra.com.br/noticias/mundo/na-polemica-do-vodu-lei-haitiana-proibiria-criacao-de-zumbis,047894c8b47da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html

[3] EntrePlanos, “As Metáforas dos Filmes de Zumbi (com Tiago Belotti) – Parte 1”. 5/4/2018. Disponível em:https://www.youtube.com/watch?v=KsCeFYA8YF0

[4] Idem.

[5] Meus 2 Centavos, “GEORGE A. ROMERO (1940 – 2017)”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=y8uOHXO4YN4>

[6] WISECRACK,  “The Philosophy of The Walking Dead – Wisecrack Edition”. 11/02/2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Lt-paZAUKeQ>

[7] Idem.

[8] Franz Oppenheimer, “A gênese do Estado”. Disponível em:<https://rothbardbrasil.com/a-genese-do-estado/>

[9] Ver Ideias Radicais, “Velho-Oeste: O estado e a Propriedade Privada”. 24/11/2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=7_lOgyif8G0>

[10] Peter J. Hill, “O anárquico Velho Oeste não era nada selvagem”. 29/06/2011, Disponível em: <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1028>

[11]Documentário do National Geographic Chicago: Most Dangerous City in the United States. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bBH4SOV85ao

[12] Paul Joshep Watson, “Portland is a Sh*thole”. 28/11/2018. Disponível : https://www.youtube.com/watch?v=aSw79yRnDVs

 

Por Alex Souza

Fonte: https://www.lexmachinae.com/2019/01/03/sci-fi-sociedade-civilizacoes-nascem-morrem/

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