Seria o bitcoin a moeda global do futuro?

Bitcoin (virtual currency) coins placed on Dollar banknotes are seen in this illustration picture, November 6, 2017. REUTERS/Dado Ruvic/Illustration

Real império, real república, cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruzeiro real e, finalmente, real. Diversas foram as moedas de nossa economia desde a colonização. Sob essa perspectiva, muito tem-se falado a respeito da natureza jurídica do bitcoin. Desde o seu lançamento, a criptomoeda vem atraindo tanto a atenção de empresas e cidadãos quanto das autoridades sob a promessa de um novo sistema financeiro descentralizado com base na tecnologia blockchain e de contabilidade distribuída[1]. Nesse cenário, diversas são as discussões sobre sua regulamentação e possível classificação.

Atento ao tema, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) elaborou o “Annual Economic Report 2018”[2], lançado em 17 de junho, afirmando que esses ativos supostamente não poderiam ser utilizados como dinheiro, vez que não gozam das características fundamentais, quais sejam, a confiança no seu valor e a capacidade do volume em circulação crescer, na mesma proporção da demanda, pelas transações. Ademais, segundo o documento, as criptomoedas são instáveis pois consomem eletricidade demais e que os elevados volumes de operações com criptomoeda poderiam colapsar a internet, sobrecarregando sistemas e tornando as trocas de informações mais lentas e onerosas. Não fosse isso suficiente, o relatório defende, ainda, que esses ativos estão muito vulneráveis a manipulações e fraudes para serem utilizados como moeda global.

Pois bem. Já se imaginou sem seu smartphone? Ou, ainda, sem sua TV, computador, applewatch, geladeira e demais eletrodomésticos? Tudo isso, assim como as criptomoedas, consomem energia. Aliás, se formos contabilizar a quantidade de energia gasta por todos os smartphones existentes no globo certamente não chegaríamos nem perto de uma pequena porcentagem do gasto de energia com a mineração do bitcoin. Fato é que a era tecnológica tornou o consumo de energia uma constante na rotina de todos. Ademais, no tocante à hipotética probabilidade de colapso em razão desses ativos, frise-se que vídeos do Youtube, séries e filmes disponibilizados pelo Netflix ou até mesmo processos financeiros tradicionais[3], consomem mais bytes por hora que a rede de mineração da criptomoeda e, até o presente momento, nada foi capaz de causar um congestionamento ou possível paralisação da internet.

Ademais, com relação ao problema da escalabilidade, ele tem sido um óbice para todos os sistemas financeiros descentralizados. No entanto, várias soluções para combater o problema vem sendo desenvolvidas, tais como a Rede Lightning[4]. Ambas oferecem, ao menos, promessa de soluções eficazes para as preocupações apresentadas.

Outro problema apontado no documento acerca da instabilidade de valor do bitcoin causada pela oferta inelástica é, de fato, verdadeiro. Contudo, a origem do problema de acordo como relatório, qual seja, a inexistência de instituição central capaz de resguardar a estabilidade da moeda, não parece correta. O documento aparentemente não está atualizado acerca da evolução das soluções de aprimoramento da tecnologia das criptomoedas, hoje já se tem discutido sobre as denominadas moedas estáveis[5], por meio das quais estão buscando suprir a inelasticidade e conter essa volatilidade das criptomoedas. Cita-se, como exemplo, a Dai, projeto lançado dentro da plataforma da Ethereum, na qual os chamados contratos inteligentes desempenham a mesma função que os bancos centrais, na medida em que regulam a oferta de moeda dependente da oferta e demanda do mercado.

Coincidência ou não, notório é que as características levantadas pelo relatório ressaltam a necessidade de um arranjo institucional, qual seja, ratificam a importância dos bancos centrais. Em entrevista ao Business Insider, Jeremy Allaire, CEO da Circle, subsidiária da Goldman Sachs, afirma que o relatório é superficial e limitado e que não é capaz de compreender o que está acontecendo nos termos do pesquisa e desenvolvimento atualmente. Além disso, vale mencionar as palavras de Jamie Burke, CEO da Outlier Ventures,  em conferência sobre o tema no Reino Unido, afirmou que as pessoas não apreciam o estágio inicial dessa nova tecnologia. Ressalta-se que, desde 2009, ano em que o código do ativo foi criado, mais de 80% do código já foi alterado e, em todo o mundo, desenvolvedores buscam novas ideias e soluções[6] para essa tecnologia.

Já está na hora de os Estados começarem a acompanhar a revolução do mundo digital e pensarem em uma solução de sistema financeiro a nível global. Nesse liame, finalizo com as palavras de Bill Gates “(…) no próximo século, se tivermos sorte, contaremos com um panorama mais global. Deixar de pensar que ‘sim, isso é bom para o meu país’ e pensar num mundo em grande escala.”

 

[1] A tecnologia permite a realização confiável de qualquer transação entre duas ou mais pessoas, sem a necessidade de intermediários, através da Internet.

[2] V. Cryptocurrencies: looking beyond the hype, disponível em https://www.bis.org/publ/arpdf/ar2018e5.htm

[3] Conforme afirmou Alex Petrov, CIO da Bitfury: “Existem 3,6 milhões de ATMs implantados nos EUA. Cada um deles está usando 7 a 800 watts apenas no modo de espera (…) e você adicionar … sistemas bancários internos, CTVs, comunicação com outros bancos, proteção adicional … você obtém custos mais altos do que o custo do Bitcoin”. Disponível em: https://bitcoinmagazine.com/articles/first-bitcoin-mining-conference-hashes-over-high-cost-energy/ (tradução livre)

[4] A rede consiste em se utilizar canais de micro pagamentos instantâneos espalhados pela rede que removem o risco de se delegar a custódia de fundos à terceiro.

[5] A moeda estável é projetada para ter um preço ou valor estável durante um período de tempo. Essas moedas visam imitar a relativa estabilidade de preços das moedas fiduciárias e mantem as características centrais das moedas criptografadas, como a descentralização e a segurança.

[6] Nesse contexto de novas soluções, Allatire citou o bitcoin Lightning Network, é um protocolo de uma série de tecnologias que permite que grandes volumes sejam processados ​​sem sugar grandes quantidades de energia, visando, com isso, resolver a escalabilidade do bitcoin.

 

Por Isabelle Rito

Fonte: https://www.lexmachinae.com/2018/08/01/bitcoin-moeda-global-futuro/

Comentários

Comentários